O que é Taichi Chuan?

Atualizado: 13 de jul.

Uma visão abrangente.



Esta é uma pergunta que pode ser respondida de várias formas, dependendo que quem pergunta, de quais são os objetivos com a prática.


Então, Taichi Chuan não é algo objetivo, mas pode ser várias coisas? Sim e não.


Essencialmente, o Taichi Chuan é a manifestação de uma cultura muito diversa da nossa. Então, para assimilarmos adequadamente o que é, e podermos expressá-la corretamente, é preciso contextualizar.


O Taichi Chuan nasce como resultado do mais elevado da produção filosófica chinesa, sofrendo influências das três grandes correntes de pensamento, Taoísmo, Confucionismo e Budismo. Daí vem o ar “místico” da arte. Não é nem somente uma arte marcial, em meio de milhares que se originaram da China, nem apenas uma escola de filosofia ocupada de suas produções abstratas. E também não é apenas uma prática física com base na medicina chinesa, com objetivos de tratar e manter a saúde. Nem uma prática apenas meditativa, ou, um processo de alquimia interna ou de desenvolvimento humano. Ela consegue ser tudo isso ao mesmo tempo, podendo beneficiar aqueles que procuram um de seus frutos, ou vários de seus benefícios.


Mas, para aqueles que tem “sede” em saber mais, que se encantaram com a prática e desejam conhece-la de forma profunda, pouco a pouco vão se familiarizando com uma nova visão sobre o mundo, de conhecer a si mesmo, de se cuidar, como se defender física e psiquicamente e começam a tomar rédeas de um processo de auto desenvolvimento pessoal. Sim, o Taichi Chuan, em sua plenitude pode te conduzir em todas estas áreas.


Como? Em nossa escola, ouvimos uma frase que se atribuiu a Yang Chengfu: “Quando me relaciono com a natureza, sou Taoísta. Quando me relaciono com as outras pessoas, sou Confucionista. Quando me relaciono a minha mente, sou Budista”.


Essa frase simples, exemplifica bem que esta arte envolve grande pensadores da cultura chinesa, que contribuíram com sua sabedoria em áreas distintas. O Taoísmo nos ensina sobre as leis naturais: Yin Yang (Taiji), Cinco Elementos, Naturalidade, Cosmologia Chinesa, Feng Shui, Medicina Chinesa, são resultados deste conhecimento. Confúcio se ocupou em adequar as leis naturais ao relacionamento humano, falando sobre conceitos de Humanidade, Integridade, Correção, Amor Filial, Fraternidade e papéis sociais, onde cada um deveria entender seu papel e exercê-lo corretamente. Buda, apesar de não ter nascido na China, influenciou muito com seu pensamento sobre a mente. Era conhecido como “a psicologia da mente vinda do Oriente (Índia)”.


Todos esses princípios permearam profundamente as artes marciais, que na China, não eram transmitidos com a conotação de apenas luta, pois, como prezava Confúcio, vivemos em sociedade. Então, apesar de precisamos nos defender, continuaremos a conviver em sociedade. Então, caso eu lesione alguém, o que acontecerá depois? Como deve ser a conduta daquele que deve proteger os outros e quando posso usar o que aprendi para me defender? Então, a disciplina de defesa pessoal era uma fração do que se aprendia numa escola tradicional, onde os alunos não se adentravam para aprender a lutar apenas, mas para se educarem nos princípios mais elevados daquela cultura.


E sim, para poder oferecer esse conhecimento, os mestres tradicionais de artes marciais eram eruditos de grande conhecimento e sabedoria. Por isso, na história da China as escolas de artes marciais se desenvolviam como clãs, e conseguiam concentrar grande poder social. Por isso, participaram de muitos eventos importantes, e foram até decisivos em muitos momentos. São exemplos dessas participações o próprio monastério de Shaolin, amplamente registrado em filmes, e a “Revoltosos das Machadinhas” (Gelaohui). Bem como, muitos mestres tiveram cargos civis importantes junto às famílias imperiais chinesas, como exemplo do fundador da família Yang, o mestre Yang Luchang, que foi instrutor de artes marciais da família imperial e da guarda imperial e Wu Yu Xiang, que era funcionário do governo Qing.


Mas, o que as artes marciais tem haver com filosofia? Para reunir as duas coisas, sugiro a leitura de um texto muito ilustrativo: “A arte cavalheiresca do arqueiro Zen”, onde o autor Eugen Herrigel, que era professor de filosofia clássica grega, narra sua estada no Japão, quando foi convidado a lecionar entre 1924 e 1929. Querendo aproveitar sua estada, quis conhecer o pensamento Zen. Para tanto, seus colegas da faculdade sugeriram que escolhesse uma arte tradicional, pois não era possível estudar o pensamento Zen por livros, da forma que ele estava acostumado com a filosofia clássica. Então, escolheu o que descreve ser a “arte mais inútil” dos tempos modernos, pois, após inventada a pólvora, o arco e flecha se tornou um instrumento obsoleto. Mas, a prática era o meio pelo qual o mestre transmitia os princípios do Zen. Princípios, esses que só eram considerados assimilados depois que o aprendiz conseguisse manifestá-los na sua ação prática com o arco. Só depois, passava-se para a próxima lição, ou o próximo princípio filosófico. Assim, era a forma antiga de se praticar todas as demais artes tradicionais, sejam marciais ou civis, como Karatê, o Kendô, ou Ikebana, a cerimônia do chá, a pintura sumiê e a cerâmica. Todas essas artes eram meios para o mestre criar uma linguagem metafórica para transmitir a filosofia, assim como era também o meio de aferir se o princípio foi corretamente assimilado. O mestre analisava os resultados de uma ação que deveria manifestar na realidade objetiva. Não se trata apenas de abstração, mas deveria alcançar um resultado prático, transformar a realidade objetiva.


Assim, durante o convívio do aluno com o professor de Taichi Chuan, ele deverá ser instruído sobre medicina chinesa, a forma para manter e tratar sua saúde, no relacionamento humano, polidez, aprendendo quando se portar de forma passiva e obediente com seus professores, mestres, irmãos mais velhos, ouvindo, abrindo sua mente buscando refletir profundamente sobre seus ensinamentos, aceitando as correções e conselhos dos mais antigos e no cuidados da sua família e escola, assim como, se portar de forma ativa com sua auto disciplina e no cuidado com os irmãos mais novos, zelando pelo aprendizado, ensinando e corrigindo adequadamente, transmitindo o carinho e cuidado de fazer parte da mesma família. Aprende sobre a mente, como ela se comporta em situações de estresse, tristeza, pesar, como estabilizar e cultivar a clareza da mente de forma que ela esteja apta a expressar seu potencial mais elevado no momento da luta, ou na hora de se colocar de frente para morte, momento último de um embate real de sobrevivência, aprendendo sobre o mundo espiritual, o momento após a morte e como se pacificar com este momento em cada dia de nossas vidas.


Esta é a perspectiva mais profunda sobre a prática do Taichi Chuan, e também outras artes tradicionais, no contexto marcial ou civil. Então, aqueles que buscam uma prática física, ela oferecer excelentes exercícios para fortalecer o corpo. Para os que buscam uma prática para equilibrar os estresse, ela ensina a pacificar a mente perante situações de extremo estresse. Para aqueles que buscam meditação e auto conhecimento, ela é um caminho completo de auto desenvolvimento humano com base nas escolas filosóficas mais elevadas produzidas pela cultura chinesa.


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